“Prefiro o arroz-de-cuxá e servir com Coca-Cola”.

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A Companhia Barrica foi criada em 2005, pelo compositor José Pereira Godão, conhecido artisticamente e pelos amigos como apenas Godão, para encantar o mundo revigorando e evidenciando a tradição das festas populares do Maranhão, a diversidade de ritmos e danças típicas do período junino e do carnaval maranhense. E num bate papo virtual com o jornalista Pedro Sobrinho, Godão deixa bem claro que não é contra terminologias, rótulos ou chavões, mas prefere “fazer o arroz-de-cuxá e servir com Coca-Cola”.

Blog: O que representa para você a criação de uma Companhia que mostra nos palcos da vida a autenticidade, a diversidade de ritmos e danças dos festejos juninos e carnavalescos do Maranhão?

Godão: Responsabilidade! Compromisso! Orgulho! Prazer! Paixão! Trabalho! Festa! 

Blog: A Companhia Barrica é uma proposta de trabalho em que se interligam várias experiências e formas de expressão artística, como exemplos o Boizinho Barrica e o Bicho Terra, abrangendo canto, dança, música, literatura, artesanato e teatro de rua, numa batalha constante. Qual a receita para manter em evidência as duas brincadeiras?

Godão: Espírito comunitário! Alma e corpo coletivo! Cooperação! Criação, ação e partilha! Estréia a cada dia, recomeçar sempre!

Blog: A Companhia Barrica tem como foco de atuação o teatro de rua. A partir daí, vem a inspiração dos espetáculos coreografados, por meio da dança, teatro, alem da música. Esse jeito que você encontrou de chamar atenção das pessoas sobre o verdadeiro papel do artista popular no contexto social e econômico da cultura é politicamente correto?

Godão: Claro! O poder econômico que gira em torno da cultura/turismo/lazer/ entretenimento/comunicação e outras mais atividades precisa urgentemente, valorizar e integrar o artista popular no seio desses negócios, pela sua fundamental atuação, produção e geração de trabalho e renda para tantos setores dessa sociedade, que se beneficiam direta e indiretamente do fazer popular. É justo! É digno! É merecedor!  

Blog: Na sua opinião, a Companhia Barrica tem feito escola, ou seja, é uma referência de trabalho a ser seguida no Maranhão?

Godão: Vinte e três anos de permanente atuação cultural! Mais de quinze discos produzidos! DVDs, livros, figurinos, bailados, batuques e festividades mil! Viagens e apresentações por esse mundão afora! Centenas de artistas, brincantes e amantes a cada estação! Somos frutos de uma comunidade-escola que faz história. Somos referência própria de nós mesmos!

Blog: O artista multimídia pernambucano Antônio Nóbrega disse que a classe média brasileira é órfã de cultura popular e que esse segmento cultural está na periferia da periferia. A teoria dele serve de modelo para quem faz e consome cultura popular no Maranhão?

Godão: É considerável o tratamento que a mídia dá hoje as manifestações culturais da cidade ? O Nóbrega é um artista genial e o que fala, canta e dança será sempre bem vindo em qualquer canto do mundo. Quanto à mídia maranhense, especialmente a de jornal e TV, vejo como generosa com a nossa cultura popular. Já a de rádio, nem tanto. Temos uma vigorosa produção fonográfica e uma baixa execução das nossas músicas. Nos demais centros culturais do país ocorrem o contrário, que faz da música regional uma alavanca de identidade, trabalho e renda para todos!

Blog: Quando você chega a grandes centros urbanos do País ou mundo afora e expõe a Companhia Barrica e toda uma estética diferente, há algum estranhamento?

Godão: É sempre positivo o intercâmbio cultural que vivenciamos. A nossa diversidade de ritmos, danças, cânticos e indumentárias provoca admiração, interesse, estudo e pesquisas permanentemente. O estranhamento é nosso de sermos muito mais compreendidos e valorizados lá fora que dentro da nossa aldeia.

Blog: Você digere ou é considerada benéfica essa simbiose, essa espécie de alinhamento do folclore com outros elementos do rotulado pop atual?

Godão: Não somos nós que degustamos essas terminologias, simbioses e rótulos culturais. Fazemos o nosso arroz-de-cuxá e o servimos com coca-cola! Vivenciamos os nossos conhecimentos! Popularizamos os nossos saberes! Somos prato cheio no liquidificador da globalização, sabemos, mas também batemos no nosso pilão e engolimos a massa regurgitada da boca do mundo, por sobrevivência!  

Blog: Você faz oposição à modernidade?

Godão: Modernidade e tradição são ciclos de vida! Para a geração dos anos 80, contemporânea ao surgimento do Boizinho Barrica, o nosso grupo é tão tradicional quanto ao secular Bumba-meu-boi da Maioba. No entanto para as gerações anteriores, que presenciaram o nascimento do Boizinho, a novidade da sua criação o colocava na berlinda da modernidade, do estranho no ninho e no universo dos “para-folclóricos”, por um bom período. Com o passar do tempo, fomos assimilados, compreendidos e incorporados às nossas festas, sem as restrições iniciais que passamos. Tudo pelo caráter, personalidade, modernidade e tradição existente na nossa brincadeira.

Blog: Você vem de uma tradição do modernismo que tenta trazer a cultura autêntica maranhense e brasileira, o “Brasil real”, como diz Ariano Suassuna, para um plano de maior visibilidade. Você vê futuro nesse percurso?

Godão: O homem encontrará na sua língua, hábitos e costumes a sua distinção e identidade de vida. O exercício da sua cultura popular e função comunitária é o CPF e passaporte para a sua comunicação global, personalidade e existência no planeta. A feliz cidade maranhense e o Brasil real de Ariano é o universo de vivências que abrigamos e amigamos dentro da gente! 

Blog: O que você cultua mais: o Boizinho Barrica ou o Bicho-Terra?

Godão: Cultuamos o Boizinho e o Bicho com a mesma intensidade, amor e paixão. O que muda mesmo é a festa. Carnaval é Bicho! São João é Barrica! Bom, no entanto, é quando viajamos por aí, fora de época, e incluímos também a Natalina. Haja coração pra segurar tanta emoção! 

Blog: Vamos falar da agenda da Companhia Barrica. Está prevista alguma turnê do Boizinho Barrica ou do Bicho Terra para fora do estado ainda este ano.

Godão: Estamos negociando uma viagem ao Rio de Janeiro e outra a Santa Catarina para final de novembro.

Blog: O que é o Maranhão culturalmente pra você?

Godão: Uma barrica cheia de encantarias! Uma caixinha de segredos musicais que pode tocar o mundo!

Blog: Godão já representa um legado para a História do Maranhão ?

Godão: A Companhia Barrica, sim! Com seus poetas, dançarinos, cantores, músicos e a sua Madre Deus de festas!

Blog: Pra fechar essa conversa afiada. Xenofobia é ou não é crime ?

Godão: (risos) O maior crime é ter aversão à sua própria taba, ou a si mesmo. Ódio, raiva, desamor são sentimentos ancestrais da humanidade. Ação e reação: jogo duro da vida! Que pena de morte o extermínio das culturas regionais pela força maciça da indústria do entretenimento globalizado! Entrou no Créu a Babilônia do Iraque! Quem nunca xenofobou que aplique a pena do crime! 

Publicação: Revista Ótima

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