Uma luz no fim do túnel

Um querido amigo meu, cujo posicionamento político e ideológico é de esquerda, mas é um sujeito descente e coerente, com quem se pode manter um bom e respeitoso diálogo, ligou para mim assim que soube da notícia de que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, havia decidido conceder a prisão domiciliar para Debora Rodrigues dos Santos, a cabeleireira que pichou a estátua da Justiça, no dia 8 de janeiro de 2023.
Esse meu amigo se disse intrigado com o motivo de o ministro ter resolvido repentinamente conceder a prisão domiciliar que já vinha sendo pedida há dois anos pelos advogados da acusada e nunca havia sido concedida. Ele estava em dúvida se havia sido porque só agora a PGR havia pedido que fosse concedida a prisão domiciliar, ou se foi pelo fato do ministro Fux ter pedido vistas do processo de julgamento de Débora para avaliar sua culpabilidade e a dosimetria da pena atribuída a ela.
Disse a ele que eu acredito que a PGR não havia pedido que a acusada tivesse a prisão domiciliar concedida porque estava fazendo tudo de acordo com o que o ministro Alexandre de Moraes havia estabelecido, que em minha opinião estava claro que havia ali um conluio, mas também por causa do pedido de vista feito pelo ministro Fux, o que demonstra claramente o quanto esse caso agrediu de forma contundente o senso geral e a opinião pública, a ponto de gerar essa tomada de decisão por parte do tirânico ministro.
Em minha conversa com aquele amigo, procurei fazer com que ele visse o quanto é absurda toda essa história. Depois de dois anos presa, uma mulher que não oferece nenhum perigo a sociedade nem ao processo no qual é acusada de crime, mãe de dois filhos menores, passa a desfrutar do direito a prisão domiciliar, assim, num estalar de dedos, quando antes isso lhe era negado de forma absurda.
A única explicação plausível para essa repentina mudança de direção neste caso é o fato de que Alexandre de Moraes, assim como outros ministros, passaram a entender que a opinião pública brasileira não tem a menor intenção de aceitar as arbitrariedades que vêm sistematicamente acontecendo nos caso referentes a 8 de janeiro de 2023.
Repentinamente ministros que antes não admitiam a mínima possibilidade de conceder qualquer direito a pessoas que, apesar de terem cometidos crimes, têm direitos constitucionais que não podem ser desconsiderados apenas e tão somente para marcar uma posição punitiva de nossa suprema corte. Agir com desrespeito a esses direitos nega a função primordial do tribunal, que é defender e zelar pelas leis brasileiras, aplicando-as de forma correta e imparcial.
No final da conversa com o meu querido amigo ele me confidenciou sobre sua dupla preocupação, com a qual eu concordo plenamente. Precisamos apurar todos os acontecimentos que envolvem a possível tentativa de golpe de estado alegada pelo STF, mas não podemos admitir que essas apurações sejam contaminadas por qualquer espécie de partidarismo ideológico ou eleitoral, nem por antipatias por esta ou aquela pessoa, pois se assim o for, todo o trabalho de combate ao alegado crime fica completamente inviabilizado e causa um estado de coisas que gera uma situação criminal tão grande quanto a que se deseja punir.
Fiquei extremamente feliz com o fato de que eu, com posicionamento na direita e aquele meu amigo colocado na esquerda do espectro ideológico, tenhamos conseguido ter opinião idêntica quanto a isso.
Para nós dois ficou claro que os vândalos de 8 de janeiro de 2023 precisam ser investigados, processados, julgados e penalizados na medida de suas culpas, sem acrescentar na balança da justiça a mão pesada do juiz que deseja fazer com que casos como aqueles sirvam meramente de exemplo, coisas que eles não fazem com outros tipos de réus, culpados de crimes muito piores.
Da mesma forma concordamos que o chamado comando do golpe precisa ser processado, pois se ocorreu realmente uma tentativa de abolir de forma violenta nosso regime democrático, isso não pode ficar impune.
Saber que pessoas que pensam de forma diferentes podem concordar em alguns aspectos importantes e decisivos, é um grande alívio, pois é sinal de que ainda existe uma possibilidade de pacificar nosso país através da coerência e do bom senso, e que existe uma luz no fim do túnel.